Este artigo conta duas histórias que são, no fundo, uma só: a de Vânia Maria Teles, nascida em 1960 numa fazenda do interior de Goiás, e a da própria Fazenda Curralinho — uma terra em nome da mesma família há mais de um século, que agora voltou para casa. O texto nasceu como um livreto escrito por seus filhos, Rodrigo e Renato, para celebrar os 66 anos de Dona Vânia, e está preservado aqui na íntegra: os capítulos, as fotografias, as vozes de quem viveu tudo isso.
Vânia
Uma vida que floresceu na terra vermelha do Cerrado

66 anos
uma celebração de gratidão, memória e amor
Fazenda Curralinho — Luziânia, GO — 2026
Os capítulos que seguem contam a história de Dona Vânia: o nascimento na fazenda em 1960, a infância entre o gado e as histórias do pai, a saída para Luziânia aos oito anos, a construção de uma família, os trinta e cinco anos no cartório, o diploma conquistado aos sessenta e cinco. E também a história da Curralinho, em nome da família há mais de um século, agora reinaugurada com a celebração dos seus 66 anos.
Uma Palavra de Nós, Seus Filhos
— ★ —
Dona Vânia,
A senhora sempre viveu para os outros. Trabalhou, abdicou, esperou — com a mesma voz mansa que herdou de seu pai e transmitiu a nós. Este pequeno livreto é a nossa tentativa de devolver, em palavras e memórias, uma pequena parte do que a senhora nos deu em vida.
Aqui está a sua história. A história de uma mulher nascida numa fazenda do interior de Goiás, que cresceu entre o café e o milho do Cerrado, que deixou tudo o que amava para que os filhos pudessem estudar, que perdeu o pai antes do tempo, que trabalhou trinta e cinco anos e nove dias com dedicação inabalável, e que criou uma família com amor, disciplina e muita fé.
Ao completar 66 anos, a senhora merece ser celebrada onde tudo começou: na Fazenda Curralinho — uma terra que está em nome da família há mais de um século. Foi o bisavô Manoel de Carvalho Resende, pai de Dona Eutália — nascido em 1899 —, quem adquiriu para a família a antiga Fazenda Veríssimo. Foi a sua geração que firmou esse pedaço de chão como casa dos Teles, e nele Dona Eutália viria a nascer. Três, quatro gerações nasceram, viveram e amaram nesse mesmo solo. Agora a fazenda voltou à família — para que as memórias não se percam e para que as próximas gerações possam pisar na mesma terra vermelha onde a senhora deu seus primeiros passos.
Com amor, Rodrigo Teles Calado e Renato Teles Calado
Capítulo I — O sábado em que ela chegou ao mundo
— ★ —
Era um sábado de 1960. Na Fazenda Curralinho, em Luziânia, no interior de Goiás, não havia hospital nem médico de plantão. Havia, porém, a mão firme e segura de Ana Cunha Teles — carinhosamente chamada de Sinhana, casada com Marcolino da Cunha Teles. Os dois, bisavós paternos da família, viviam na vizinha Fazenda Olaria, também conhecida como Corumbá.
Sinhana não era parteira de nome, mas era parteira de vocação. Ela fez o parto dos dez filhos de Seu Miguel e Dona Eutália, e era chamada pela redondeza toda quando alguma mulher entrava em trabalho de parto. Montava no cavalo e ia — sem hesitar, sem reclamar. Era simples, decidida e, segundo quem a conheceu, parecia um anjo.
“Ela montava no cavalo e ia. Simples, mas que resolvia. Era tipo um anjo.”
Dona Vânia veio ao mundo pequena e magrinha, mas com um coração que sempre foi grande demais para caber em qualquer lugar. Desde o princípio, seu estômago teimoso anunciou que ela havia chegado para dar trabalho — e muito amor.
A família de Seu Miguel e Dona Eutália teve dez gestações ao longo dos anos. Duas crianças, infelizmente, partiram cedo demais — uma marca que toda família grande carrega em silêncio, e que se sente em cada nascimento celebrado depois. O primeiro filho, Ivan, viveu apenas sete meses. E pouco antes da chegada da caçula, durante uma gestação que parecia tranquila, Dona Eutália estava na roça quando um trovão estourou no céu. O susto foi tamanho que o parto se adiantou.
Quando Elza nasceu, Sinhana — depois de ter feito todos os partos da família e visto tudo — proferiu uma bênção que ficou gravada na memória dos Teles:
“Que Deus abençoe. Que seja a última — você não merece mais tanto sofrimento.”
Sinhana faleceu jovem, quando a caçula Elza tinha pouco mais de um ano. Não chegou a ver as netas crescerem. Mas a sua marca ficou: a coragem de montar a cavalo no escuro para chegar aonde era preciso é exatamente o tipo de força que Dona Vânia carregaria consigo por toda a vida.
Em ordem de chegada ao mundo, os filhos de Seu Miguel e Dona Eutália foram: Ivan, Dorinha, Dorivan, Déia, Tõe, Delnice, Vânia, Hilda e Elza — a caçula. Oito deles seguiram juntos pela vida. Dona Vânia é, em suas próprias palavras, a antepenúltima.


Capítulo II — Como ela ganhou o nome de Vânia
— ★ —
Em algumas famílias, o nome de uma criança chega num único gesto. Em outras, vai sendo costurado aos poucos. Foi o que aconteceu com Dona Vânia.
Tio Dorivan, um dos irmãos mais velhos, conta a história assim. No princípio, ela foi chamada de Maria, e apelidada carinhosamente de Mariinha. Foi batizada com esse nome. Mas, como o registro civil não foi feito logo após o nascimento, a irmã Déia passou a chamá-la de Vanda — e pediu ao pai que a registrasse com esse nome novo.
Coube então a Dorivan propor um meio-termo que agradasse a todos. Sugeriu que ela fosse registrada como Vânia Maria — preservando o nome de batismo e acolhendo o desejo da irmã. Déia aceitou. Seu Miguel também — afinal, Maria havia sido o primeiro nome dela. E assim, no cartório, ficou registrada Vânia Maria Teles. O nome com que viveria os sessenta e seis anos seguintes nasceu de um pequeno acordo familiar, costurado com afeto.
“De todas as irmãs, foi a que mais se pareceu com a nossa bisavó Licota.”
Essa frase é do próprio Tio Dorivan, e talvez explique algo do mistério de Dona Vânia: ela carrega traços de muito antes. Tem o rosto de quem veio de longe — de uma linhagem que atravessou gerações na mesma terra, ensinando filhos a respeitar, a trabalhar, a amar.
Capítulo III — A terra, a roça e o pai das histórias
— ★ —
A Fazenda Curralinho era o mundo. Não havia outro. O cheiro da terra molhada depois da chuva, o barulho do gado no curral ao amanhecer, o vapor da farinha de mandioca sendo feita. A família plantava café, milho, arroz, feijão e mandioca. Do leite das vacas, saía o queijo. Os bezerros eram vendidos para sustentar a casa. Era assim que a vida girava.
O dia tinha rituais. De manhã, cada filho se apresentava à mãe com a mesma saudação invariável: “Bênção, mãe.” Dona Eutália era o eixo firme da casa — trabalhava sem parar, colocava todos em ordem, raramente se permitia uma saída além da roça ou de um culto na igreja. Mas tinha seus momentos de ternura: a filha Elza lembra até hoje de se deitar no colo dela, de tardezinha, e receber na boca as colheradas de comida que a mãe servia com paciência.
Seu Miguel era diferente. Tranquilo, de poucas palavras — mas quando falava, estava falado. Nunca foi visto brigando com a esposa. No final da tarde, voltava do campo trazendo frutas colhidas pelo caminho, e a casa se enchia de brincadeiras. Era a maneira dele de amar.
Antes da chegada do pai, os filhos já tinham tomado banho. A casa cheirava a sabão e a tarde virava noite. Vinha o jantar. E só depois disso — todos limpos e alimentados — começava o ritual mais lembrado de todos.
“Depois do jantar, meu pai contava histórias para nós dormirmos. Muitas vezes a gente pedia a mesma história três vezes, e ele repetia com toda a paciência do mundo.”
A mais lembrada era a história do Rei dos Peixes: um pai que leva o filho para pescar à beira do rio, e um rei misterioso que emerge das águas pedindo que lhe entregue a primeira coisa que encontrar ao chegar em casa. O primeiro a cruzar o caminho é o próprio filho. O menino é levado ao fundo do rio, colocado no alto de uma árvore — mas o pai tinha lhe dado um canivete. E com o canivete, o menino consegue descer, e pai e filho se reencontram. Era uma história de perigo, de engenho e de amor paterno — contada três, quatro vezes na mesma noite, sem perder a paciência.
Seu Miguel também fazia graça com os filhos de outra maneira: sentava, chamava a filha para o colo, e passava a barba no rosto dela. Ela ficava vermelha. Ele só ria. A ela, chamava de Maria Branca. Essa voz mansa, esse pai que nunca levantou a mão nem a voz — ficou gravado para sempre.
Seu Miguel não era homem de luxo, mas era homem de trabalho — e respeitava boa ferramenta. Quando comprou um Jeep Willys CJ-5, veículo fabricado no Brasil pela Willys-Overland entre as décadas de 1950 e 1970, não foi por exibição. Foi porque a vida no campo pedia. Estradas de terra, córregos para atravessar, gado para conduzir, filhos para levar e trazer da cidade. O Jeep era extensão do braço de quem trabalhava.

E a vida na fazenda não terminou com Seu Miguel. Os filhos perpetuaram os ofícios do pai. Tio Antônio — o Tõe — continuou tirando leite das vacas no curral, do mesmo jeito que o pai fazia, no mesmo lugar, com a mesma paciência. Algumas coisas, no campo, não se mudam: passam de mão em mão.

Capítulo IV — Oito anos, uma mala e muita saudade
— ★ —
Em casa de gente do campo, há valores que se transmitem como herança. Um deles, na família Teles, sempre foi a educação. Seu Miguel e Dona Eutália acreditavam que os filhos deveriam estudar mais do que eles próprios estudaram — e os pais deles, antes ainda, haviam pensado assim. De geração em geração, o desejo se aprofundava: que cada filho fosse um pouco mais longe. Que cada neto fosse um pouco mais longe ainda.
Mas na fazenda não havia escola. Então, com oito anos, Dona Vânia fez o que muitas crianças daquela geração fizeram: deixou para trás a terra, os pais e a infância, e veio para Luziânia.
A casa era alugada pelo pai. Os irmãos mais velhos se organizavam como podiam. Para não deixar faltar nada, Seu Miguel abriu uma conta no armazém do Zé Vieira — filho de um compadre seu, amigo de longa data —, onde os filhos podiam pegar alimentos. O irmão Dorivan, o mais velho em casa, assumiu um papel quase paterno: dava as ordens, cobrava estudos, não deixava ninguém sair à noite sem permissão. Com ele, a palavra era final — assim como havia sido com o pai.
“Foi muito difícil para mim vir para cá. Me sentia entristecida, me sentia insegura. Não gostava daqui. Sentia falta da fazenda, dos meus pais.”
Ela entrou de cabeça no Colégio Estadual Epaminondas Roriz, direto na 1ª série. Quieta, tímida, religiosa desde cedo, sempre preferiu poucas amizades verdadeiras a muitas superficiais. Era assim a menina que veio da fazenda: reservada por fora, profunda por dentro. E nos fins de semana e feriados, sempre que podia, voltava — de ônibus, de carona, do jeito que fosse — para a Curralinho. Para rever os pais. Para pisar na terra de novo.
Com o tempo, Luziânia foi se tornando lar. Mas a Fazenda Curralinho nunca saiu do coração.

Capítulo V — 14 de setembro de 1979
— ★ —
Dona Vânia tinha dezoito anos quando o mundo desabou.
Dias antes, Seu Miguel havia chegado com o resultado de um exame. O médico dissera que ele tinha um mês de vida. A irmã Elza lembra que, pouco antes, pediu ao pai que a deixasse fazer um churrasco na roça para os seus quinze anos. Ele se virou para ela e disse, com tristeza: “Seu pai está muito doente. Vai dar triste.” Só então a gravidade da situação começou a se revelar.
Era fim de tarde, 14 de setembro de 1979. Seu Miguel tinha acabado de juntar o gado no curral. Antes de fechar a porteira, caiu. Infarto fulminante. Dona Eutália gritou tanto que um vizinho bem distante ouviu. Ele colocou Seu Miguel na caminhonete e trouxe até a cidade.
“Quando ele chegou na porta de casa, meu pai estava na parte de trás da caminhonete, já sem vida. O mundo para mim desabou.”
Seu Miguel tinha a voz mais mansa do mundo. Nunca falou alto. Nunca levantou a mão. E foi embora cedo demais, sem ter visto a filha se firmar na vida, sem ter conhecido os netos que tanto o lembram.
Mas tudo o que ele plantou em Dona Vânia — a paciência, o carinho, a voz mansa — continua vivo. Em cada história que ela contou para seus filhos. Em cada vez que escolheu o amor acima do cansaço.

Depois daquele 14 de setembro, foi Dona Eutália quem se firmou como o eixo da família. Mais firme do que ela já era. Cuidou de cada um à sua maneira, conduziu a vida na fazenda, e atravessou as décadas seguintes com a postura silenciosa de quem sabe que ainda há gente para amparar. Foi esteio.
Na velhice, cada um dos oito filhos contribuiu da sua maneira para retribuir tudo o que ela havia dado. E nos seus últimos momentos, foi a Tia Elza — a caçula, a mais mimada — quem a acolheu em casa, devolvendo a ternura recebida no colo da mãe, de tardezinha, quando ainda criança recebia na boca as colheradas servidas com paciência. Os ciclos se completam. As mães cuidam. E depois, somos nós que cuidamos delas.
Capítulo VI — Trinta e cinco anos e nove dias
— ★ —
Aos quinze anos, Dona Vânia já trabalhava. O primeiro emprego foi na escola de datilografia do irmão Dorivan, onde aprendeu o ofício numa Olivetti Lettera 32 — a máquina que definia uma geração. Dois anos ganhando velocidade e precisão. Aos dezoito, foi aprovada em concurso do BRB — mas desistiu na última etapa porque Brasília “parecia o fim do mundo.” Ela queria ficar perto das raízes.
Foi a amiga Selma quem mudou o rumo da história. Ela trabalhava num cartório e indicou Dona Vânia para uma vaga. Aceita no processo seletivo — em parte porque já dava aulas de datilografia, em parte por sua competência reconhecida em análise crítica e escrita, que sempre foram seus pontos fortes —, ela entrou. E ficou.
“No cartório eu adquiri amizades, convivi com colegas como se fossem família. Aprendi que um documento requer muita atenção. De lá eu tirava o meu sustento para pagar o colégio dos meus filhos.”
Trinta e cinco anos e nove dias. Uma carreira construída com seriedade, com atenção e com a insegurança produtiva de quem se recusa a errar. O Sr. Beto foi seu mestre: nunca deixou uma pergunta sem resposta, sempre foi além, sempre explicou. O cartório foi sua segunda família. Quando a sucessão chegou, o cuidado também teve continuidade: Rubens Meireles assumiu a casa e deu sequência ao legado construído pelo pai, com o mesmo zelo de sempre.
Quando leu no jornal que o cartório iria a concurso público, ela começou a se preparar emocionalmente. Ano após ano, foi soltando aquilo que tanto amava. Saiu em 2014. E seguiu em frente — como sempre fez.
Capítulo VII — A maior vocação
— ★ —
A maternidade chegou com tudo. No dia 21 de outubro de 1985, Rodrigo nasceu. No dia 17 de setembro de 1987, Renato chegou ao mundo. Dois bebês com menos de dois anos de diferença, uma licença-maternidade de apenas dois meses, um cartório para não abandonar e uma família para sustentar. Dona Vânia foi ao trabalho com o coração partido, mas não deixou nada faltar.
“Não gosto nem de me lembrar da dificuldade que eu passei para conciliar tudo. Foi muito difícil. Mas eu tinha que trabalhar para ajudar na despesa.”
Nessa jornada, ela não estava sozinha. Dona Odete, avó paterna dos meninos, foi uma presença fundamental nos primeiros anos — e a Tia Ivonei, irmã do pai, abraçou a causa da família com dedicação e carinho que nunca serão esquecidos. Se não fosse por elas, certamente os desafios teriam sido ainda maiores. A Maria, empregada que ficou vinte e dois anos na casa, também foi uma parceira inestimável nessa rotina intensa.
E na formação dos meninos esteve, sobretudo, Iscláudio Calado, pai de Rodrigo e Renato, que lhes deu educação e os ensinou desde cedo o que é certo.
Outras figuras também foram inspiração no caminho. Tio Paulinho foi quem apresentou a Rodrigo o primeiro computador — um gesto pequeno na hora, mas que mudaria o rumo de uma vida. E o professor Granjeiro foi quem deu a Rodrigo a sua segunda oportunidade de emprego, abrindo uma porta que se mostraria decisiva. Pequenas mãos, em momentos certos, mudam destinos.
Quando Rodrigo quis estudar numa universidade de verdade, Dona Vânia “removeu a montanha.” Conseguiu desconto, fez funcionar, não deixou o sonho do filho morrer por falta de dinheiro. Quando a escola chamava — e Rodrigo dava bastante trabalho —, ela atravessava Luziânia a pé para buscá-lo, sem carro, sem reclamar. Era assim que ela amava: fazendo.


- Outro retrato — Vânia com os dois filhos
Capítulo VIII — O sonho que demorou — e veio inteiro
— ★ —
Há sonhos que a vida adia, mas não apaga. Dona Vânia carregou por décadas o desejo de cursar uma faculdade. Estudou, trabalhou, criou os filhos, viu Rodrigo e Renato se formarem — mas o seu próprio diploma de ensino superior continuava lá adiante, esperando.
Até que, aos sessenta e cinco anos, ela decidiu. Não para provar nada a ninguém — mas para se honrar. Escolheu um curso que conversava diretamente com a sua vida inteira: o Curso Superior de Tecnologia em Gestão de Serviços Judiciais e Notariais. A senhora que durante trinta e cinco anos e nove dias lidou com documentos, que se tornou referência em escrituras complexas de fazendas, que era consultada inclusive por advogados antes de bater o martelo — voltou aos bancos da faculdade para estudar, com método e rigor, aquilo que já dominava na prática.
E o lugar onde isso aconteceu também tem o seu significado: a Gran Faculdade, instituição digital que Rodrigo cofundou ao lado do sócio Gabriel Granjeiro — pelo convite de quem segue profundamente grato. Juntos, construíram uma empresa cujo propósito é a verdadeira democratização do ensino, mudando a vida de tantas pessoas. Entre elas, agora, a da própria mãe. O diploma que ela recebeu traz, no canto inferior esquerdo, a assinatura do próprio filho como Chanceler. É uma página rara dentro da história desta família — uma mãe colando grau na faculdade do próprio filho.
Não foi fácil. Ela mesma diz isso. Foram aulas assistidas com determinação, trabalhos entregues no prazo, um TCC defendido com a serenidade de quem conhece o ofício de dentro. Em 18 de setembro de 2025, Dona Vânia colou grau. Tornou-se Tecnóloga. Realizou um sonho de uma vida inteira.
“Foi difícil. Mas eu fui até o fim.”

Capítulo IX — Quem a conhece, fala
— ★ —
Pedimos à Tia Elza — irmã de Dona Vânia, confidente de décadas, a caçula que ela ajudou a criar — que falasse sobre ela. As palavras vieram sem hesitar, e formaram quase um único retrato.
Elza começou dizendo que Vânia se acha fraca, mas que, na verdade, é muito mais forte do que ela própria. Que é forte, independente, inteligente, determinada e religiosa. Que nunca olhou o limite à frente — sempre pensou além do que parecia possível. Que não pensa pequeno: pensa grande, e age para que aquilo que pensa aconteça.
Em seguida, falou do coração da irmã. Disse que ela tem um coração imenso, e uma honestidade que beira o desconforto: Vânia não consegue passar ninguém para trás, não passa por cima de nada nem de ninguém, é honesta até demais. Que é uma mulher guerreira, e uma super mãe, que não mediu esforços por nada do que fez pelos filhos.
Por fim, virou o olhar para a Curralinho. Para Tia Elza, saber que a fazenda voltou à família representa a infância inteira, representa o lugar onde os pais moraram, representa as raízes de todos. Ela conta que ficava preocupada com quem iria comprar a fazenda — pensava que tinha acabado, que aquele pedaço de chão se perderia. A volta da fazenda, para ela, representa tudo de bom. Foi onde viveram a vida inteira.

Capítulo X — Os irmãos, os primos e a água que sempre correu
— ★ —
A história dos Teles não parou nos oito filhos de Seu Miguel e Dona Eutália — começou com eles, e nunca soltou. Dorinha, Dorivan, Déia, Tõe, Delnice, Vânia, Hilda e Elza atravessaram juntos a infância na fazenda, a saída para a cidade, a perda do pai aos dezoito anos de Vânia, e as vidas adultas em lugares diferentes. E continuam, ainda hoje, reunindo-se com a frequência e o afeto que aprenderam dentro da Curralinho. É raro uma família tão grande chegar tão longe sem perder o eixo. A dos Teles chegou.

De cada um deles brotou uma nova safra. Do Tio Dorivan, nasceu Bruna. Do Tio Antônio — o Tõe —, vieram Ana Paula e Luana. Da Tia Dorinha, Miguel, Ricardo, Sérgio e Franciene. Da Tia Déia, Oséias, Osmar e Marquim. Da Tia Delnice, Marquinhos e Lidiane. Da Tia Hilda, Cléver e Tatiane. Da Tia Elza, Wellington. E de Dona Vânia, Rodrigo e Renato — os mesmos que assinam este pequeno livro de homenagem.

Quando todos se reúnem — irmãos, cunhados, filhos, sobrinhos, netos e agregados — em poucos minutos qualquer quintal vira festa. Família grande não cabe em foto. Mas tenta.

E em todas essas reuniões, havia um lugar que os chamava de volta — a própria Curralinho, e a água que a atravessava.
Pela parte alta da propriedade corre o Ribeirão Veríssimo. E pelo restante das terras, um córrego menor serpenteia toda a Curralinho. Em dois pontos específicos desse córrego, a água se acumulava o suficiente para virar piscina natural — e essas duas piscinas tinham nome próprio entre os primos: o poção e o açude. Ali, em todo domingo que parecia digno, os adultos descansavam à sombra das árvores, e as crianças mergulhavam de cabeça, gritavam quando a água gelada chegava, comiam com as mãos sujas, e voltavam para casa cansadas e felizes.
A água continua correndo. Os primos cresceram. A fazenda esperou. Mas o som da água caindo nas pedras — esse, ninguém esquece.

Capítulo XI — O melhor momento de uma vida
— ★ —
A vida tem ciclos. E talvez nenhum se complete tão lindamente quanto este: a menina que nasceu na fazenda em 1960, a mulher que criou dois filhos no aperto e na fé, hoje é avó de quatro netos — e diz, sem hesitar, que está vivendo o melhor momento da sua vida.
De Rodrigo Calado e Fernanda Abud, vieram Tamir e Latifa. De Renato Calado e Fernanda Rodrigues, Luiza e Matheus. São quatro, ainda pequenos, e cada um deles é um continente para a avó. Ela os ama com a paixão tranquila de quem já sabe o que importa — no colo, na conversa, nos vídeos que recebe pelo celular, nas visitas que demoram um dia inteiro mas terminam curtas demais.
E ama, também, as duas mulheres que lhe deram esses netos. Fernanda Abud e Fernanda Rodrigues — as suas noras — são, na visão de Dona Vânia, as melhores mães do mundo. Mulheres maravilhosas, generosas, dedicadas. Ela diz isso quando elas estão por perto, e diz isso quando estão longe. É o tipo de carinho que não se finge.
A família que ela construiu, que durante décadas pareceu apenas o trabalho de cada dia, virou esta cena: mãe, filhos, noras, netos. Um quadro completo. Um final feliz que, na verdade, é só o começo.




Capítulo XII — A Fazenda Curralinho voltou para nós
— ★ —
Por décadas, a Fazenda Curralinho ficou na memória — e no coração. Dona Vânia sempre se perguntou: quando a propriedade fosse vendida, ela ainda poderia voltar? Esse pensamento a acompanhou por anos, quietinho, como uma saudade que não tem endereço.
Ela chegou a pedir a Rodrigo que comprasse. Depois, quando a coisa parecia não ir para frente, foi se acostumando com a ideia de que talvez não fosse acontecer. E então, num dia comum, ele telefonou com a notícia:
“Quando eu tinha me acostumado que você não ia comprar, aí você chegou e falou que ia comprar. Acendeu aquele desejo de vir para lá, aquela vontade de relembrar a infância.”
A Fazenda Curralinho está em nome da família há mais de um século. Nela, e nas terras vizinhas da antiga Fazenda Veríssimo, nasceram bisavós, avós, tios. Nela, Sinhana montava a cavalo e fazia partos. Nela, Seu Miguel criou gado, plantou milho, trouxe frutas do campo e contou a história do Rei dos Peixes. Nela, Dona Vânia nasceu. Agora a fazenda voltou à família — para que as raízes fiquem firmes e as próximas gerações saibam de onde vieram.
E o que poderia ser mais justo do que reinaugurá-la com o aniversário de quem nasceu nela?

— ★ —
Para a mulher que nos ensinou
que o amor não grita —
ele acorda cedo, trabalha o dia todo
e ainda faz a janta.
— ★ —
Com amor,
Rodrigo Teles Calado
Renato Teles Calado
